domingo, 25 de novembro de 2012

Relação entre paradigma e modelo pedagógico


Para entender o conceito de modelo, é preciso transitar pelo termo paradigma.
Este é de uso comum, o que impõe uma análise prévia do seu significado no contexto educativo.
Thomas Kuhn, no seu livro The structure of scientific revolutions (1996), reinterpretou o conceito de paradigma, definido-o como um quadro teórico, constituído a partir de um conjunto de regras metodológicas e axiomas, aceito por uma determinada comunidade científica, durante um determinado período de tempo. Logo, pode-se dizer que funciona como um sistema de referências em que as teorias são testadas, avaliadas e, se necessário, revistas. Assim, o paradigma é um corpo teórico ou sistema explicativo dominante, durante algum tempo, em uma área científica particular. Mas por que durante um determinado tempo? Kuhn afirma que existem rupturas na evolução científica, e, se refere a elas como “mudanças de paradigma”. Logo, partindo da definição kuhniana, pode-se dizer que o paradigma é a representação do padrão de modelos a serem seguidos. É um pressuposto filosófico matricial, ou seja, uma teoria, um conhecimento que origina o estudo de um campo científico; uma realização científica com métodos e valores que são concebidos como modelo; uma referência inicial como base de modelo.

Quando se fala de mudança de paradigma, está se direcionando para uma nova forma de ver, sentir, viver dentro de um novo referencial. A pesquisa científica tem por objetivo promover mudanças na maneira como se entende o mundo. Ocorrem rupturas drásticas com o passado, muitas vezes abrindo um novo capítulo na compreensão da realidade, o que é acompanhado pela reconstrução de teorias e pela reinterpretação de experimentos. Outras mudanças envolvem apenas uma pequena inovação, deixando virtualmente intocada a grande estrutura do conhecimento da área em questão.

Portanto, as mudanças de paradigma são sentidas em todas as áreas do saber, sendo que muitas das mudanças ocorrem de dentro para fora dessas áreas. No caso da educação ocorreu uma mudança paradigmática de fora para dentro, resultante da introdução das tecnologias da informação e da comunicação, levando a um novo perfil de instituição e à reformulação das funções dos “atores” envolvidos, entre eles gestores da educação, professores, alunos e monitores.

O termo “mudança paradigmática” vem sendo relacionado, nos últimos tempos, às TICs e, principalmente, à EAD por ser um dos grandes dinamizadores dessas rupturas na área educacional. O mundo tem como novos pilares os conceitos de tempo e de espaço. Nesse sentido, vem emergindo um paradigma que se constitui em um novo sistema de referências, por meio da confluência de um conjunto de teorias, de ideias que explicam/orientam uma nova forma de viver, de educar e de aprender. Ao reportar tais tendências para o campo educativo, torna-se indispensável elucidar os paradigmas que sustentam as mudanças nas práticas pedagógicas. Destaca-se que os paradigmas educacionais constituirão um sistema de referência que explica um determinado fenômeno educativo. Portanto, nos últimos tempos, há cada vez mais necessidade de construir esses pilares teóricos levando em conta as “novas” tendências, contemplando aspectos de natureza epistemológica, metodológica e ontológica.
Assim abrem-se caminhos de investigação nesta área advindos da necessidade de realizar pesquisas científicas que auxiliam no entendimento destas novas tendências, onde as teorias deixam de ser adequadas e é necessário produzir um novo conhecimento científico que possa responder a estas mudanças.

A atividade científica procura compreender, explicar e predizer fenômenos do mundo (Kuhn, 1996). Por esse motivo, a ciência busca, por meio de leis, princípios e modelos, generalizar e simplificar a realidade. O conceito de modelo surge, portanto, com o viés de estabelecer uma relação por analogia com a realidade. O modelo é um sistema figurativo que reproduz a realidade de forma mais abstrata, quase esquemática, e que serve de referência (Behar, 2007).

Logo, é no cerne do paradigma que emergem os modelos. Pode-se afirmar que cada modelo tem uma expressão própria dentro de cada paradigma e que se distingue pelas finalidades que pretende atingir, pelo meio ambiente e pelos resultados esperados, o que, naturalmente, levará a diferenciar as estratégias utilizadas (Gaspar et al., 2006). Como nesta abordagem o foco é a educação, este modelo será denominado de modelo pedagógico, cuja raiz estará nas teorias de aprendizagem.

Na educação, o conceito de modelo foi erroneamente considerado sinônimo de paradigma, também de teorias de aprendizagem como as desenvolvidas por Piaget, Vygotsky, Roger, Bruner, entre outros, ou ainda como metodologia de ensino, e por essa razão foi necessária essa revisão na definição dos conceitos.

Nesta abordagem, a expressão “modelos pedagógicos” representa uma relação de ensino/aprendizagem, sustentado por teorias de aprendizagem que são fundamentadas em campos epistemológicos diferentes. Tudo isso aponta para um determinado paradigma. Logo, faz-se necessário revisar algumas das ideias apresentadas por Becker (2001), que traz nos seus estudos o conceito de modelos pedagógicos, mas não voltado à EAD.
Partindo de um paradigma interacionista, tem-se como pressupostos que o sujeito é construtor do seu próprio conhecimento. Assim, a base do modelo é a (inter)ação entre sujeito e meio exterior (o objeto). A aprendizagem é, por excelência, ação, construção, tomada de consciência da coordenação das ações.

Seguindo uma visão instrucionista, em que o sujeito é considerado uma tábula rasa, uma folha de papel em branco, de modo que todo o seu conhecimento vem do meio exterior. Logo, este modelo se baseia em uma relação em que o objeto define o sujeito. Assim o  conhecimento nunca se constrói, ele é transmitido ou transferido ao sujeito. No paradigma humanista – que, aliás, é bem mais difícil de perceber –, o sujeito já nasce com um saber, uma bagagem, e à medida que vai crescendo ele precisa apenas trazer à consciência, aprendendo a organizá-lo. Deve-se deixar o sujeito fazer o que ele deseja porque, a princípio, tudo é bom, instrutivo, e ele, por meio de suas ações, encontrará seu caminho. O que se deseja com a colocação destas ideias? Mostrar que nem sempre são construídos modelos que seguem somente uma determinada teoria. Assim, de forma geral, os modelos são “reinterpretações” de teorias a partir de concepções individuais dos professores que se apropriam parcial ou totalmente de tais construtos teóricos imbuídos em um paradigma vigente. Desta forma, o modelo construído muitas vezes recebe o nome de uma teoria (piagetiana, rogeriana, vygostkyana, skinneriana, etc.) ou de um paradigma (interacionista, humanista, instrucionista, etc.). No entanto, essa nomenclatura pode não condizer com a epistemologia que a embasa, contradizendo as teorias mencionadas (Behar, 2007). Logo, nesta abordagem, entende-se que um modelo pedagógico pode ser embasado em uma ou mais teorias de aprendizagem.



Na Figura 1.1, apresenta-se o processo de construção de um modelo pedagógico. Parte-se de um paradigma dominante que, em geral, influencia as teorias de aprendizagem vigentes, assim como outras teorias científicas. A partir dele, os sujeitos constroem um modelo pessoal próprio que é compartilhado com os pares, gerando, assim, um modelo pedagógico compartilhado. É necessário explicar o significado dos diferentes conceitos considerados fundamentais na definição das diretrizes que irão orientar o modelo pedagógico.
Como mencionado, percebe-se que o termo “modelo pedagógico” é interpretado como uma metodologia de ensino que, sem dúvida, é um dos seus elementos, como será apresentado na próxima seção. Porém, essa “redução” do modelo à sua parte visível ignora outros elementos que o constituem e que são fundamentais de serem explicitados para a compreensão do processo educativo.

Ao trazer para a discussão a EAD, a situação fica mais complexa ao se estabelecer um novo patamar para a palavra “modelo”. Nessa perspectiva, o conceito de modelo está vinculado fortemente às TICs e, particularmente, aos ambientes virtuais de aprendizagem (AVA) utilizados como forma de mediação para promover a educação. Assim, é comum ler em artigos científicos frases como “o modelo de EAD implantado aqui é o de videoconferência” ou “nosso modelo de EAD busca a aprendizagem colaborativa por meio da interação aluna/professor” ou “os modelos propostos são apresentados segundo a perspectiva das trocas comunicativas”, dentre outras abordagens. Frente a essa situação, questiona-se até que ponto o termo “modelo pedagógico” tem uma conceituação clara na área de informática na educação e, em especial, na EAD. Vê-se com preocupação a profusão do termo “modelo pedagógico” para significar qualquer conceito. Por isso, este capítulo visa alicerçar a construção de um significado mais aprimorado do termo “modelo pedagógico” direcionado à EAD.

E por que este modelo seria diferente do modelo pedagógico usado no ensino presencial? Uma das características que definem a EAD é que ela é constituída por um conjunto de sistemas que partem do princípio de que os alunos estão separados do professor em termos espaciais e, muitas vezes ou na maioria das vezes, temporais. Essa distância não é somente geográfica, mas vai além, configurando-se em uma distância transacional, “pedagógica”, a ser gerida por professores, alunos, monitores/tutores. Assim, o papel das TICs é contribuir para “diminuir” essa “distância pedagógica”, assegurando formas de comunicação e interação entre os “atores” envolvidos no processo de construção de conhecimento pela EAD.
A questão dessa “distância” sempre foi um desafio para os educadores. No entanto, será que resolver esse problema é suficiente para ensinar e aprender a distância? Assim, abre-se uma lacuna de como construir um modelo pedagógico que possa não só superar a distância, mas concretizar situações de um “novo saber pedagógico”. Assiste-se, nos últimos tempos, ao desenvolvimento de uma infinidade de propostas didático-pedagógicas para a EAD. À medida que vão aparecendo no mercado novas tecnologias, elas vão sendo incorporadas ao sistema educacional, fazendo com que as questões de EAD sejam olhadas mais do ponto de vista tecnológico do que pedagógico. Isso traz resultados negativos, levando ao fracasso escolar, pois se colocam como foco as mudanças tecnológicas e não as paradigmáticas.
Assim, propõe-se definir os pressupostos de um modelo pedagógico para educação a distância que possa responder às mudanças de paradigma no sentido dado por Kuhn (1996). Fala-se de um novo domínio na educação, passando de uma relação de um-para-muitos e/ou muitos-para-muitos, com espaço-tempo definidos, e em que predomina a comunicação oral, para uma interação de um-para-muitos, um-para-um e inclusive muitos-para-muitos.
Esse novo domínio é baseado em comunicação multimedial, não exigindo a copresença espacial e temporal. Por isso, trata-se de um novo patamar em que não se podem adaptar modelos pedagógicos derivados do ensino presencial para a distância.

Aqui, a ruptura paradigmática significa a construção de novas matrizes que sustentem a gestão da distância pedagógica, novos pilares que sustentem esse novo conhecer, viver, ser e esse novo fazer a distância.

Autora: Patricia Alejandra Behar 

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