Para entender o conceito de modelo, é
preciso transitar pelo termo paradigma.
Este é de uso comum, o que impõe uma
análise prévia do seu significado no contexto educativo.
Thomas Kuhn, no seu livro The structure of
scientific revolutions (1996), reinterpretou o conceito de paradigma, definido-o
como um quadro teórico, constituído a partir de um conjunto de regras
metodológicas e axiomas, aceito por uma determinada comunidade científica,
durante um determinado período de tempo. Logo, pode-se dizer que funciona como
um sistema de referências em que as teorias são testadas, avaliadas e, se
necessário, revistas. Assim, o paradigma é um corpo teórico ou sistema
explicativo dominante, durante algum tempo, em uma área científica particular.
Mas por que durante um determinado tempo? Kuhn afirma que existem rupturas na
evolução científica, e, se refere a elas como “mudanças de paradigma”. Logo, partindo
da definição kuhniana, pode-se dizer que o paradigma é a representação do
padrão de modelos a serem seguidos. É um pressuposto filosófico matricial, ou
seja, uma teoria, um conhecimento que origina o estudo de um campo científico;
uma realização científica com métodos e valores que são concebidos como modelo;
uma referência inicial como base de modelo.
Quando se fala de mudança de
paradigma, está se direcionando para uma nova forma de ver, sentir, viver
dentro de um novo referencial. A pesquisa científica tem por objetivo promover
mudanças na maneira como se entende o mundo. Ocorrem rupturas drásticas com o
passado, muitas vezes abrindo um novo capítulo na compreensão da realidade, o
que é acompanhado pela reconstrução de teorias e pela reinterpretação de
experimentos. Outras mudanças envolvem apenas uma pequena inovação, deixando
virtualmente intocada a grande estrutura do conhecimento da área em questão.
Portanto, as mudanças de paradigma são
sentidas em todas as áreas do saber, sendo que muitas das mudanças ocorrem de
dentro para fora dessas áreas. No caso da educação ocorreu uma mudança
paradigmática de fora para dentro, resultante da introdução das tecnologias da
informação e da comunicação, levando a um novo perfil de instituição e à
reformulação das funções dos “atores” envolvidos, entre eles gestores da
educação, professores, alunos e monitores.
O termo “mudança paradigmática” vem
sendo relacionado, nos últimos tempos, às TICs e, principalmente, à EAD por ser
um dos grandes dinamizadores dessas rupturas na área educacional. O mundo tem
como novos pilares os conceitos de tempo e de espaço. Nesse sentido, vem
emergindo um paradigma que se constitui em um novo sistema de referências, por
meio da confluência de um conjunto de teorias, de ideias que explicam/orientam
uma nova forma de viver, de educar e de aprender. Ao reportar tais tendências
para o campo educativo, torna-se indispensável elucidar os paradigmas que
sustentam as mudanças nas práticas pedagógicas. Destaca-se que os paradigmas
educacionais constituirão um sistema de referência que explica um determinado
fenômeno educativo. Portanto, nos últimos tempos, há cada vez mais necessidade
de construir esses pilares teóricos levando em conta as “novas” tendências,
contemplando aspectos de natureza epistemológica, metodológica e ontológica.
Assim abrem-se caminhos de
investigação nesta área advindos da necessidade de realizar pesquisas
científicas que auxiliam no entendimento destas novas tendências, onde as teorias
deixam de ser adequadas e é necessário produzir um novo conhecimento científico
que possa responder a estas mudanças.
A atividade científica procura
compreender, explicar e predizer fenômenos do mundo (Kuhn, 1996). Por esse
motivo, a ciência busca, por meio de leis, princípios e modelos, generalizar e
simplificar a realidade. O conceito de modelo surge, portanto, com o viés de
estabelecer uma relação por analogia com a realidade. O modelo é um sistema
figurativo que reproduz a realidade de forma mais abstrata, quase esquemática,
e que serve de referência (Behar, 2007).
Logo, é no cerne do paradigma que
emergem os modelos. Pode-se afirmar que cada modelo tem uma expressão própria
dentro de cada paradigma e que se distingue pelas finalidades que pretende
atingir, pelo meio ambiente e pelos resultados esperados, o que, naturalmente,
levará a diferenciar as estratégias utilizadas (Gaspar et al., 2006). Como
nesta abordagem o foco é a educação, este modelo será denominado de modelo
pedagógico, cuja raiz estará nas teorias de aprendizagem.
Na educação, o conceito de modelo foi
erroneamente considerado sinônimo de paradigma, também de teorias de
aprendizagem como as desenvolvidas por Piaget, Vygotsky, Roger, Bruner, entre
outros, ou ainda como metodologia de ensino, e por essa razão foi necessária
essa revisão na definição dos conceitos.
Nesta abordagem, a expressão “modelos
pedagógicos” representa uma relação de ensino/aprendizagem, sustentado por
teorias de aprendizagem que são fundamentadas em campos epistemológicos
diferentes. Tudo isso aponta para um determinado paradigma. Logo, faz-se
necessário revisar algumas das ideias apresentadas por Becker (2001), que traz
nos seus estudos o conceito de modelos pedagógicos, mas não voltado à EAD.
Partindo de um paradigma
interacionista, tem-se como pressupostos que o sujeito é construtor do seu
próprio conhecimento. Assim, a base do modelo é a (inter)ação entre sujeito e
meio exterior (o objeto). A aprendizagem é, por excelência, ação, construção, tomada
de consciência da coordenação das ações.
Seguindo uma visão instrucionista, em
que o sujeito é considerado uma tábula rasa, uma folha de papel em branco, de
modo que todo o seu conhecimento vem do meio exterior. Logo, este modelo se
baseia em uma relação em que o objeto define o sujeito. Assim o conhecimento nunca se constrói, ele é transmitido
ou transferido ao sujeito. No paradigma humanista – que, aliás, é bem mais
difícil de perceber –, o sujeito já nasce com um saber, uma bagagem, e à medida
que vai crescendo ele precisa apenas trazer à consciência, aprendendo a
organizá-lo. Deve-se deixar o sujeito fazer o que ele deseja porque, a
princípio, tudo é bom, instrutivo, e ele, por meio de suas ações, encontrará
seu caminho. O que se deseja com a colocação destas ideias? Mostrar que nem
sempre são construídos modelos que seguem somente uma determinada teoria. Assim,
de forma geral, os modelos são “reinterpretações” de teorias a partir de
concepções individuais dos professores que se apropriam parcial ou totalmente
de tais construtos teóricos imbuídos em um paradigma vigente. Desta forma, o
modelo construído muitas vezes recebe o nome de uma teoria (piagetiana,
rogeriana, vygostkyana, skinneriana, etc.) ou de um paradigma (interacionista,
humanista, instrucionista, etc.). No entanto, essa nomenclatura pode não
condizer com a epistemologia que a embasa, contradizendo as teorias mencionadas
(Behar, 2007). Logo, nesta abordagem, entende-se que um modelo pedagógico pode
ser embasado em uma ou mais teorias de aprendizagem.
Na Figura 1.1, apresenta-se o processo
de construção de um modelo pedagógico. Parte-se de um paradigma dominante que,
em geral, influencia as teorias de aprendizagem vigentes, assim como outras
teorias científicas. A partir dele, os sujeitos constroem um modelo pessoal
próprio que é compartilhado com os pares, gerando, assim, um modelo pedagógico
compartilhado. É necessário explicar o significado dos diferentes conceitos
considerados fundamentais na definição das diretrizes que irão orientar o
modelo pedagógico.
Como mencionado, percebe-se que o
termo “modelo pedagógico” é interpretado como uma metodologia de ensino que,
sem dúvida, é um dos seus elementos, como será apresentado na próxima seção.
Porém, essa “redução” do modelo à sua parte visível ignora outros elementos que
o constituem e que são fundamentais de serem explicitados para a compreensão do
processo educativo.
Ao trazer para a discussão a EAD, a
situação fica mais complexa ao se estabelecer um novo patamar para a palavra “modelo”.
Nessa perspectiva, o conceito de modelo está vinculado fortemente às TICs e,
particularmente, aos ambientes virtuais de aprendizagem (AVA) utilizados como
forma de mediação para promover a educação. Assim, é comum ler em artigos
científicos frases como “o modelo de EAD implantado aqui é o de
videoconferência” ou “nosso modelo de EAD busca a aprendizagem colaborativa por
meio da interação aluna/professor” ou “os modelos propostos são apresentados
segundo a perspectiva das trocas comunicativas”, dentre outras abordagens.
Frente a essa situação, questiona-se até que ponto o termo “modelo pedagógico”
tem uma conceituação clara na área de informática na educação e, em especial,
na EAD. Vê-se com preocupação a profusão do termo “modelo pedagógico” para
significar qualquer conceito. Por isso, este capítulo visa alicerçar a
construção de um significado mais aprimorado do termo “modelo pedagógico”
direcionado à EAD.
E por que este modelo seria diferente
do modelo pedagógico usado no ensino presencial? Uma das características que
definem a EAD é que ela é constituída por um conjunto de sistemas que partem do
princípio de que os alunos estão separados do professor em termos espaciais e,
muitas vezes ou na maioria das vezes, temporais. Essa distância não é somente
geográfica, mas vai além, configurando-se em uma distância transacional, “pedagógica”,
a ser gerida por professores, alunos, monitores/tutores. Assim, o papel das TICs
é contribuir para “diminuir” essa “distância pedagógica”, assegurando formas de
comunicação e interação entre os “atores” envolvidos no processo de construção
de conhecimento pela EAD.
A questão dessa “distância” sempre foi
um desafio para os educadores. No entanto, será que resolver esse problema é
suficiente para ensinar e aprender a distância? Assim, abre-se uma lacuna de
como construir um modelo pedagógico que possa não só superar a distância, mas
concretizar situações de um “novo saber pedagógico”. Assiste-se, nos últimos
tempos, ao desenvolvimento de uma infinidade de propostas didático-pedagógicas
para a EAD. À medida que vão aparecendo no mercado novas tecnologias, elas vão
sendo incorporadas ao sistema educacional, fazendo com que as questões de EAD
sejam olhadas mais do ponto de vista tecnológico do que pedagógico. Isso traz
resultados negativos, levando ao fracasso escolar, pois se colocam como foco as
mudanças tecnológicas e não as paradigmáticas.
Assim, propõe-se definir os
pressupostos de um modelo pedagógico para educação a distância que possa
responder às mudanças de paradigma no sentido dado por Kuhn (1996). Fala-se de
um novo domínio na educação, passando de uma relação de um-para-muitos e/ou
muitos-para-muitos, com espaço-tempo definidos, e em que predomina a
comunicação oral, para uma interação de um-para-muitos, um-para-um e inclusive
muitos-para-muitos.
Esse novo domínio é baseado em
comunicação multimedial, não exigindo a copresença espacial e temporal. Por
isso, trata-se de um novo patamar em que não se podem adaptar modelos
pedagógicos derivados do ensino presencial para a distância.
Aqui, a ruptura paradigmática
significa a construção de novas matrizes que sustentem a gestão da distância
pedagógica, novos pilares que sustentem esse novo conhecer, viver, ser e esse
novo fazer a distância.
Autora: Patricia Alejandra Behar
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