domingo, 25 de novembro de 2012

Case de Sucesso: UFRJ e o papel social

Compromisso político e social da Universidade: a criação da Divisão de Integração Universidade-Comunidade (DIUC) na UFRJ


Uma das ilusões liberais é que a instrução, por si só, seja fator capaz de transformar a sociedade, quando sabemos que em países como o Brasil o problema só poderá ser solucionado pela conjugação entre educação e consciência política progressista.
(Antonio Candido)
A Universidade Pública tem assumido, ao longo de sua história, diferenciados papéis e envolvimentos com a sociedade, dependendo do contexto político vivido pelo país, das pressões políticas dos segmentos que a constitui e das opções dos seus dirigentes. Um dos principais indicadores da atuação social da universidade materializa-se na natureza e no grau de compromisso com o atendimento de demandas presentes nas diferentes instâncias da sociedade. Neste leque, se situa o grau de interesse em atender, prioritariamente, as demandas maiores do Mercado ou dos grupos sociais populares, por exemplo.
O debate sobre o papel social da universidade com os grupos sociais subalternos, em especial, foi marcado pela afirmação de conceitos apresentados muitas vezes como dicotômicos, tais como os vínculos e rupturas entre os interesses de grupos particulares e os do conjunto do universo social; a afirmação da pesquisa e da extensão como práticas estanquizadas ou excludentes e, mesmo, a acusação aos grupos que afirmavam a importância do compromisso com ações voltadas para os setores populares de buscarem reproduzir na vida universitária os parâmetros políticos populistas que marcam o país há muitos anos.
Essas diferentes concepções, que interferem de forma efetiva na construção cotidiana da universidade, sinalizam alguns interessantes pontos de vista sobre a função e sentido que a Universidade deve ter, ao pensarmos as condições políticas, econômicas e sociais do Brasil e a necessidade de se superar os graves e estruturais desafios que os as afeta. Nesse processo, cabe, de modo regular e sistemático, uma reflexão profunda e sincera sobre quais caminhos precisam ser perseguidos no atual quadro político que vivenciamos e o que pode, de fato, gerar um outro olhar e percepção sobre a instituição universitária, tão importante quando consideramos o seu papel formador, mas tão conservadora se pensada enquanto elemento chave para a manutenção de uma visão elitista e hierarquizada da sociedade.
No caso da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, ela se constituiu em sua breve história, considerando-se a existência centenária da instituição universitária, a partir de diferenciados projetos político-pedagógicos, os quais se fazem presentes de forma plural em seus diversos institutos, programas e núcleos funcionais. Neste sentido, a UFRJ está longe de ser uma instituição homogênea, capaz de desenvolver suas ações cotidianas a partir de um ordenado, regular e restritivo programa de ação das instâncias superiores de decisão. Ela é uma instituição viva, complexa, marcada por uma intensa produção de conhecimentos e de formas simbólicas de representação da realidade, muitas vezes contraditórias.
Essa pluralidade institucional, similar, provavelmente, a que ocorre com todas as instituições universitárias públicas, para dizer o mínimo, não impede, todavia, a afirmação de referências hegemônicas na condução das práticas desenvolvidas em suas instâncias formais. Estas grandes referências é que sofrem as mudanças mais abruptas no processo histórico, de acordo com os embates político-ideológicos e da correlação de forças entre os distintos grupos acadêmicos/universitários.
As formas de relação da universidade com o universo dos grupos sociais-populares, suas práticas culturais e econômicas e suas demandas apresentam-se como um dos campos em que se faz mais presente as distinções entre os diversos grupos de poder dessa instituição. Assim, os diferentes sujeitos que constituem a UFRJ vivenciaram, no decorrer da sua existência, de algumas situações de abertura para a produção de conhecimentos e de intervenção social em consonância com as demandas desses setores sociais e reconhecendo os saberes desses grupos populares.
Por outro lado, a mesma instituição viveu, em suas estruturas formais, momentos de grande distanciamento do cotidiano desses grupos, tanto no campo da produção de conhecimentos e produtos a eles destinados, da intervenção sócio-acadêmica ou, de forma mais geral, da experiência de diálogo entre os seus saberes e os dos grupos sociais em questão.
A configuração institucional apontada propicia que tenhamos atualmente na UFRJ variadas experiências no campo do relacionamento e da interação com a sociedade. Nesse âmbito, chama atenção o projeto universitário da atual gestão que ocupa a reitoria, voltado, dentre outros eixos programáticos, para a busca da construção de canais formais e permanentes de relação entre a universidade e os grupos sociais populares.
Nesse contexto, somos obrigados, como integrantes da instituição, a (re)pensar as funções e objetivos da UFRJ, e, por conseguinte a Universidade Pública, a partir do atual contexto político no qual se encontra o estado do Rio de Janeiro e o Brasil. Nesse caso, destacam-se temas como a progressiva fragmentação social, o aprofundamento das situações de violência na vida cotidiana e a persistência de obstáculos estruturais, de diversas ordens, que dificultam o necessário desenvolvimento sócio-econômico.
A UFRJ é uma das mais significativas instituições acadêmicas no cenário nacional e está localizada no segundo maior pólo econômico do país, marcado por vocações peculiares e sérios problemas urbanos a serem enfrentados. Esse contexto exige que ela se coloque como um espaço pedagógico e político referencial para a formulação de idéias e processos geradores de desenvolvimento.
Nessa compreensão, temos como pressuposto que o seu papel primeiro seria o de criar as condições favoráveis para a produção de conhecimentos que tivessem como princípio aliar demandas reais da sociedade à criação de alternativas para superação de problemas absolutamente inaceitáveis na realidade social. Esse papel da instituição poderia ser traduzido na busca de disseminar uma formação profissional aos seus alunos centrada na produção e difusão de conteúdos e práticas socialmente referenciados, sempre que possível. De forma tal que esses conteúdos e práticas funcionem como instrumentos para a constituição de uma visão crítica sobre suas vidas, suas comunidades, suas cidades, seu país e sobre o que caracteriza as relações mundiais na atualidade. E, naturalmente, isso implica reconhecer que não há dicotomia entre competência técnico-acadêmica e engajamento ético-político na defesa de uma sociedade justa e democrática, na qual se compatibilize o reconhecimento e legitimação das diferenças e a produção de maior igualdade socioeconômica entre os sujeitos sociais.
Nessa perspectiva, está sendo construída atualmente na UFRJ uma política institucional que pela primeira vez, pelo menos em sua história recente, busca materializar de forma efetiva a proclamada indissociabilidade entre seus três pilares de ação: pesquisa, docência e extensão. No que concerne às duas primeiras ações, historicamente privilegiadas na instituição, a prioridade vem sendo o investimento na melhoria das condições de trabalho docente e na permanência qualificada dos estudantes na Universidade. Isso pode ser percebido pela forma como se deu a (re) organização das Pró-Reitorias, com a tentativa de se assegurar certa unidade para o conjunto da UFRJ.
No que diz respeito à extensão, cabe assinalar as mudanças que a tem caracterizado nos últimos anos, de forma geral no ensino superior. Elas se expressam, em um rico ciclo virtuoso, que passa pelo fortalecimento de grupos representativos como o Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas Brasileiras; pelo desenvolvimento, teórico e prático, de novas formas de pensar a realidade social e o papel da universidade; pelo reconhecimento da extensão universitária como a síntese do processo de produção do conhecimento científico e da formação das novas gerações universitárias; pela superação de certa tradição paternalista e autoritária que marcava a intervenção universitária, que a tornava, muitas vezes, mais filantrópica do que acadêmica; e, para não ser exaustiva, pela construção de novas formas de relação com os grupos sociais populares, valorizando-se sua pluralidade, seus saberes e suas estratégias de vivência. Essa concepção de se fazer a extensão, em permanente (re)elaboração, talvez seja a expressão maior de uma forma diferenciada de se fazer política acadêmica, atualmente priorizada na UFRJ.
O conjunto de elementos assinalados vem gerando a produção de novos saberes e práticas institucionais. E, no caso da UFRJ, esse processo já foi um pouco mais longe. Com efeito, especificamente no tocante ao relacionamento com a sociedade, a Pró-Reitoria de Extensão – PR-5 - vem passando por um profundo processo de avaliação e transformação de sua estrutura funcional e de sua atuação. Isso porque o seu trabalho se complementa e se viabiliza na relação com o conjunto das Unidades Acadêmicas da UFRJ, sendo sua função maior coordenar as diversas iniciativas voltadas para o atendimento das demandas sociais presentes na sociedade. O órgão se coloca, então, de forma intencional, em um ponto de tensão, de encontro entre as instâncias internas da universidade. Ele estimula o exercício de práticas interdisciplinares e a construção de mecanismos de diálogos entre os atores constituintes da instituição, de forma a ampliar as possibilidades da UFRJ contribuir para o desenvolvimento social do Rio de Janeiro e do país.
Nessa concepção, o contato com a sociedade, em particular com suas demandas sociais, é a variante essencial para se repensar à produção e a difusão do conhecimento, que, obviamente, sempre será a razão de ser da existência da Universidade. Mas ela torna-se mais e mais uma organização social antenada com seu tempo e seu espaço. De forma tal que, como aponta Antonio Candido em epígrafe, se torna progressivamente capaz de fornecer um tipo de educação que afirma a impossibilidade da neutralidade no que diz respeito à consciência ético/política, e, por isso, afirma, de forma cotidiana, forma categórica o compromisso com a utopia de uma sociedade plenamente humana.
A intenção acima descrita se materializou na criação da Divisão de Integração Universidade Comunidade - DIUC, no segundo semestre de 2003, no âmbito da Pró-Reitoria de Extensão. Essa iniciativa é relevante por diversas razões, em particular devido ao seu alcance pedagógico para todos os atores envolvidos e pelo fato de reforçar o peso político e social da UFRJ no âmbito do campo universitário e na realidade social do Rio de Janeiro, de forma mais direta. Este novo setor nasceu com o intuito de estimular, articular e, quando for o caso, coordenar um conjunto de ações singulares no campo acadêmico, formuladas e desenvolvidas pelas Unidades, que se destinem a ampliar a presença social da universidade na polis e vice-versa. Pois, além da necessária inserção social da universidade, cabe a esta se abrir, de forma sistematizada e regular, para os diversos grupos sociais, em particular para aqueles que têm, historicamente, menor capacidade de acesso à instituição. Assim, a DIUC também tem buscado funcionar como um efetivo espaço onde as organizações sociais possam dialogar e apresentar suas demandas.
As atividades dos Programas e Projetos da DIUC acontecem a partir da interação com um conjunto de Organizações da sociedade civil, sendo priorizada a ida dos estudantes universitários, professores e técnicos para as comunidades aonde reside o contingente populacional que não tem, em muitas situações, garantido os seus direitos humanos básicos. Dessa maneira, definiram-se como prioridades os seguintes eixos tópicos:
• articular, estimular e contribuir para a produção de conhecimento; materializar ações e projetos de extensão e de pesquisa nas Unidades Acadêmicas que tenham como foco os espaços populares;
• propor e implementar iniciativas, em uma perspectiva interdisciplinar, que ampliem os canais de interlocução entre as instâncias universitárias e as instituições da sociedade civil, em especial as presentes nos espaços populares;
• articular fóruns plurais na universidade – seminários, colóquios, oficinas - dedicados à discussão, formulação e encaminhamentos junto às instâncias de governo, a fim de viabilizarem-se como políticas públicas voltadas para os grupos sociais populares;
• sistematizar, produzir e difundir conceitos e diagnósticos sociais que permitam às Unidades da Universidade uma intervenção mais qualificada nos espaços populares;
• ampliar, através de eventos de variadas ordens, a inserção dos grupos sociais populares nos espaços político-pedagógicos da Universidade e organizar espaços dentro da Instituição e nas comunidades que favoreçam a troca de saberes entre os grupos acadêmicos e os grupos sociais populares.

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DIUC – NIAC – Oficina de Musicultura
Desde a sua criação, a DIUC já materializou alguns projetos interdisciplinares que têm como prioridade a construção de conhecimento a partir de ações junto à população residente em algumas áreas pobres do estado do Rio de Janeiro, com foco para determinadas localidades próximas ao campus da UFRJ. Dessa maneira, a Divisão vem agregando um número significativo de docentes, discentes e técnicos da UFRJ em diversas atividades, tais como:
• Programa de Alfabetização da UFRJ para Jovens e Adultos de Espaços Populares2. Esse Programa conta com docentes da Faculdade de Letras, de Educação, do Instituto de Matemática e da Escola de Serviço Social. O intento maior desse trabalho é o de produzir conhecimentos na área da criação de metodologias para o aprendizado da leitura e da escrita voltado, prioritariamente, para o contingente da população que não teve esse direito quando criança. São práticas importantes nessa iniciativa a formação ético-pedagógica dos nossos estudantes, já que irão atuar como educadores, a busca de um relacionamento qualitativo junto às instituições comunitárias nas quais as classes são organizadas e, também, o estímulo para que os alunos da UFRJ atuantes no Programa busquem aprofundar sua qualificação acadêmica a partir do conjunto de questões e perspectivas que se colocam com a realização dessa atividade extensionista.
• Projeto Pré-Universitário de Nova Iguaçu3, no Município de Nova Iguaçu. Essa iniciativa reúne diferentes Unidades Acadêmicas, como os Institutos de Física, de Matemática, de Química, de Biologia, de Psicologia, de Geociências, de Filosofi a e Ciências Sociais e a Faculdade de Letras. O objetivo primeiro dessa iniciativa é possibilitar um debate importante e atual na UFRJ sobre o seu compromisso com o acesso e a permanência de jovens oriundos de áreas populares à Universidade Pública. Como é sabido, a histórica forma de ingresso na Universidade tem deixado de fora a maioria das pessoas que não conseguem ter uma educação básica de qualidade e num curto espaço de tempo deixam de freqüentar a escola por não conseguirem prosseguir. Esse contingente, infelizmente, significa a maioria dos jovens pobres de nosso estado.
• Programa Conexões de Saberes4 e o PET Conexões: Diálogos entre a Universidade e as Comunidades Populares – Criado em 2004 pelo MEC, em parceria com a Organização da Sociedade Civil, o Observatório de Favelas do Rio de Janeiro e com cinco universidades, dentre elas a UFRJ, o programa busca ampliar as possibilidades de permanência dos estudantes de origem popular na universidade pública. Atualmente, ele reúne 33 universidades federais, em todas as unidades federativas. Na UFRJ, ele reúne estudantes de variados cursos, todos de origem popular. O grupo tem trabalhado no sentido de ampliar a reflexão na universidade sobre a importância da construção de políticas que democratizem, de forma permanente e institucional, o acesso e permanência dos estudantes de origem popular à universidade;
• O NIAC - Núcleo Interdisciplinar de Ações para Cidadania5 - agrega projetos da Escola de Serviço Social, do Instituto de Psicologia, das Faculdades de Direito e de Arquitetura e Urbanismo; desenvolve iniciativas com ênfase em questões relacionadas aos Direitos Humanos. Os profissionais têm como princípio atuar de maneira holística e relacional junto ao conjunto de problemas que afetam a população mais pobre do estado do Rio de Janeiro. As atividades do NIAC estão organizadas a partir de um diagnóstico social sobre as reais condições de vida da população onde irá trabalhar e da devida compreensão das problemáticas sociais; da formulação de proposições no campo das políticas públicas e da criação de formas de tratamento de temáticas nas áreas da Criminologia Crítica Aplicada; Educação Jurídica Popular; posse e propriedade no espaço urbano; assessoria a movimentos populares etc. Essas atividades são desenvolvidas de maneira prioritária com os diferentes segmentos e representantes de Instituições Estatais, Comunitárias, Não-Governamentais e outras.
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Seminário NIAC/DIUC na Maré
O Laboratório de Inclusão Digital – LID - o primeiro criado na UFRJ para receber a comunidade externa à Universidade, o LID tem como premissa permitir o acesso da população mais pobre a uma ferramenta importante de comunicação nos tempos atuais. É uma forma, também, de propiciar um espaço interno, no Campus para que a população possa conhecer e vivenciar, de alguma forma, um pouco do espaço acadêmico por excelência. Nele, o Núcleo de Computação Eletrônica da UFRJ – NCE – em parceria com outras Unidades Acadêmicas, desenvolve projetos de formação na área de educação voltada para os grupos sociais populares, em particular os moradores das favelas.
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LID - DIUC
A Divisão de Integração Universidade Comunidade (DIUC) é um órgão recente e, assim, os profissionais que nele atuam ainda estão em busca de consolidar o seu desenho institucional, sua missão e suas metodologias. Ela se alimenta dessa práxis e, ao mesmo tempo, do conjunto de reflexões e proposições que vem sendo construída no campo da extensão e dos princípios mais gerais que têm norteado a atual gestão da UFRJ. Nessa direção, temos certeza que a DIUC tem condições de cumprir um importante papel no sentido de ampliar os canais de interlocução entre a Universidade e a realidade social, em particular dos grupos populares. Para isso, ela não teme colocar em questão os modelos de políticas públicas vigentes a fim de repensar a formulação de novos caminhos de atuação do poder público. Isso porque sua ambição vai ao sentido de contribuir na consolidação de uma nova universidade, de uma organização social e pública que materialize em suas ações cotidianas, em seus projetos extensão e de pesquisa e no trabalho docente uma nova forma de fazer acadêmico; um modelo criativo e rigoroso, que rompa, sem jamais negar, com o absoluto da Razão. E que possa temperá-la com o sentimento de generosidade para ouvir o diferente e com a crença na utopia, na possibilidade de um mundo alternativo à barbárie que também se apresenta cotidianamente. Sem jamais esquecermos que ambos – utopia e barbárie – estão sendo, em suas polaridades, a cada momento construídos, a cada gesto feito em nossas práticas sociais.
Fonte: http://www.pr5.ufrj.br
Autora: Eliana Sousa Silva 

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